O cinema virou o Beira-Rio

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Pense em uma mutação. Uma transformação completa. Pense em confortáveis poltronas estofadas se transformando em escadarias de concreto. Imagine que a gélida ventilação expelida pelo ar-condicionado é na verdade a brisa congelante que bate na beira do Guaíba. E veja que famílias inteiras são na verdade grupos de facções fanáticas, trajando indumentária similar e entoando cânticos de guerra. Imagine agora uma tela gigantesca virando um gramado grandioso e lembre-se que a pipoca saborosa e quentinha, na verdade é um pastel de queijo respingando gordura.

Esta mutação surreal acontece diariamente em Porto Alegre e por mais de 20 vezes. No centro e na Zona Norte, salas de cinema do Rua da Praia Shopping, do Strip Center e do Bourbon Shopping ficam com jeito de estádio de futebol. Cinéfilos, ou melhor, torcedores, vestem a camisa de seu time e formam filas para comprar os ingressos de um filme, ou será de um jogo? É tudo isso ao mesmo tempo, e mais um pouco.

Gigante – Como o Inter Conquistou o Mundo é, antes de mais nada, um dos maiores sucessos de bilheteria da história do cinema gaúcho. Até a última segunda-feira (26/11), 17.911 espectadores já tinham passado pelas três salas de cinema que exibem o longa-metragem. Os números já fazem do filme o terceiro documentário mais visto do ano e nos últimos dois fins de semana, o documentário que conta a conquista do título mundial colorado é o mais visto em toda rede Unibanco espalhada pelo Brasil. No dia 14 de dezembro, Gigante será lançado nacionalmente, com exibição em outras plagas, como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Florianópolis e Brasília.

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Em 90 minutos, a vitória do Inter contra o Barcelona é contada com imagens do jogo, filmagens de bastidores e depoimentos de jogadores, torcedores e dirigentes. Dirigido, roteirado e montado pelos colorados Gustavo Spolidoro, Luís Augusto Fischer e Giba Assis Brasil, Gigante também usa imagens de torcedores captadas com câmeras amadoras no estádio de Yokohama.

 

O clima de Beira-Rio já é sentido nas bilheterias. Ao longe, já é possível avistar filas imensas de pessoas trajando camisetas vermelhas e com númerais às costas, como nas intermináveis colunas humanas formadas na Avenida Padre Cacique nas vésperas de decisões.

Como em toda decisão, sempre alguém fica sem ingresso, como o torcedor Gustavo Lerner, 19 anos, que chegou no Bourbon Country para a sessão das 14h e teve que esperar para assistir ao filme às 16h. Durante a espera, ao menos foi possível tirar uma foto com o pequeno Toshiro, amuleto da conquista colorada no Japão.

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Entrando na sala de exibição, os colorados cantam o tradicional “Vamo, Vamo Inter”, tomando as arquibancadas cheios de energia. Os trailers são sumariamente ignorados e a massa, entre sacos de pipoca, jujubas e refrigerantes, vai entoando “Colorado, Colorado, nada vai nos separar”.

Durante o filme, um fascinante exercício de interação. Na sessão das 18h do dia 11 de Novembro, os torcedores lotavam o cinema e permaneciam inebriados e estáticos durante um depoimento do ex-presidente Fernando Carvalho. De repente, uma torcedora grita: “Gol do São Paulo!”. O cinema veio abaixo com a informação do gol que praticamente eliminava o arqui-inimigo da Libertadores da América. Vibração com muita secação, como em todo jogo que se preze.

E até o término do filme, que tem um final que todos já sabem como é, sobram gargalhadas para as piadas do Perdigão, vaias para expressões incrédulas de Ronaldinho e êxtase no gol do Gabirú, apresentado com uma edição ágil, intercalando as visões de cada um dos participantes no momento do gol mais importante da senda quase centenária de vitórias coloradas.

Depois das sessões, os torcedores correm para as lojas e levam o Gigante para casa. Comercializado em DVD, o filme é um sucesso de vendas. Mesmo sendo gigante, o filme não ocupa muito espaço nos lares colorados, que deste 17 de dezembro de 2006, guardam o mundo dentro de casa.

Confira o trailer de Gigante – Como o Inter Conquistou o Mundo

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